Armínio Fraga: tarifaço dos EUA contra o Brasil foi fruto de um 'canal político explícito'
Publicada em 02/08/25 às 21:15h - 11 visualizações
Brasil247
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Armínio Fraga: tarifaço dos EUA contra o Brasil foi fruto de um \'canal político explícito\' (Foto: Reprodução)
O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, avaliou que a taxação de 50% imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros, ainda que com uma lista de exceções, representa um ataque de viés político à democracia nacional.
“O Brasil entrou nessa história por um canal diferente, claramente um canal político explícito”, afirmou Fraga em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.
Segundo Fraga, a medida é uma interferência externa inaceitável nos assuntos internos do Brasil.
“Eu sou brasileiro; o que eles têm que se envolver no funcionamento da nossa democracia? Ela é imperfeita, como todas, mas funciona”, pontuou.
Para ele, a retaliação econômica americana escancara o desconforto do governo Trump com decisões do Supremo Tribunal Federal e de outras instituições do país, mas não surtirá efeito: “Na área política, ele não vai ter os seus desejos atendidos de jeito nenhum”.
Embora a lista de exceções à tarifa de 50% tenha evitado consequências imediatas mais drásticas, Fraga considera que o impacto econômico ainda é expressivo.
“Está todo mundo respirando um pouco aliviado, mas ainda é um problema muito grande”, avaliou.
O economista destacou que o momento internacional marcado por turbulências como pandemia, guerra na Ucrânia e movimentos protecionistas tem sido agravado por iniciativas como a do presidente americano.
“Chega o Trump e joga essa bomba protecionista, com ideias ainda não muito claras”, criticou.
A principal preocupação de Fraga, no entanto, está no aspecto político da decisão de Trump. Para ele, a aplicação da Lei Magnitsky usada pelo governo americano para justificar as sanções em circunstâncias como as atuais configura um precedente perigoso.
“Você pode discordar ou não do que está acontecendo no Supremo brasileiro, na atuação do ministro Alexandre de Moraes, mas isso é um problema nosso.
Eu temo por um Supremo excessivamente ativista, mas o debate é nosso”, disse.
Na entrevista, Fraga Fraga defendeu que o Brasil aproveite a crise para enfrentar velhas barreiras comerciais que inibem o crescimento.
Para ele, o momento pode ser transformado em oportunidade: “A gente deve fazer desse limão uma limonada.
Sentar, acalmar as coisas e aproveitar a oportunidade para fazer algo que nos deixe um País menos protecionista”.
Citando estudo do Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP), coordenado por Daniel Gleizer, Fraga voltou a defender a abertura comercial unilateral do Brasil.
Ele também elogiou o avanço de soluções como o Pix, que considera uma inovação com potencial global.
“Acho que o Pix é uma ameaça modernizadora maravilhosa.
Os próprios americanos, em algum momento, vão dizer: eu também quero”.
Sobre a atuação do governo brasileiro, o ex-presidente do BC afirmou que é preciso paciência para negociar, mas criticou a condução da política externa sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“A política externa do Brasil também tem sido um pouco exótica, e não é de hoje.
E a do PT, sobretudo com uma afinidade surpreendente a ditadores de inúmeros países.
Eu acho que o nosso caminho é outro. O caminho bom, mais natural para nós, é o caminho mais ocidental”.
Fraga reconhece que há áreas em que as demandas de Trump coincidem com propostas que ele mesmo defende.
“Curiosamente, alguns dos desejos [de Trump] eu sinceramente compartilho, porque acho que o Brasil é uma economia muito fechada.
Então, se isso for algo que leve a uma abertura racional do País [...] vai ser bom para nós”.
Questionado sobre o impacto do tarifaço na economia brasileira, Fraga respondeu que ainda é cedo para se ter uma dimensão precisa.
“A parte econômica está sendo processada, muita gente fazendo conta”.
Para ele, o efeito direto sobre a inflação não está claro, podendo depender de variações no câmbio.
“O resto eu acho que talvez não seja tão relevante”, completou.
Apesar das incertezas, ele alerta para o risco de desaceleração econômica interna: “A economia tende a se desacelerar um pouco agora, por razões cíclicas internas”.
Entre os fatores, destaca os juros elevados e a sobrecarga do Banco Central diante de um quadro fiscal frágil.
Sobre medidas emergenciais para proteger setores atingidos pela tarifação, o economista preferiu adotar cautela.“Ainda é cedo para dizer”, destacou.
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