Putin nega nova mobilização, mas os sinais dizem o contrário
A Rússia está perdendo mais soldados do que consegue recrutar pela primeira vez desde o início da invasão da Ucrânia. No primeiro trimestre de 2026, o exército russo perdeu cerca de 89.000 homens mortos ou gravemente feridos, enquanto recrutou apenas
Publicada em 04/04/26 às 22:37h - 10 visualizações
Realidade Militar
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(Foto: rEPRODUÇÃO)
A sangria que a Rússia não consegue parar
Quando um exército ataca, ele naturalmente perde mais soldados do que o lado que se defende.
Quem avança fica exposto ao fogo inimigo em campo aberto, enquanto quem defende está protegido em trincheiras, bunkers e posições elevadas preparadas com antecedência.
Esse princípio clássico da guerra se aplica com força total ao conflito entre Rússia e Ucrânia.
Segundo dados do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, dos Estados Unidos), desde o início da invasão em fevereiro de 2022 até dezembro de 2025, a Rússia acumulou cerca de 1,2 milhão de baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos.
Para se ter uma ideia da escala, o próprio CSIS afirma que nenhuma grande potência sofreu perdas tão pesadas em qualquer guerra desde a Segunda Guerra Mundial.
O ritmo das perdas se acelerou de forma alarmante.
Segundo o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, em outubro de 2025 a Rússia perdeu 26.000 soldados.
Em novembro, foram 30.000. Em dezembro, 35.000.
E no primeiro trimestre de 2026, as perdas chegaram a 89.000 em apenas três meses, com quatro meses consecutivos em que as baixas superaram o número de recrutados.
O principal responsável por esse nível de destruição tem nome: os drones.
A Ucrânia construiu o que ficou conhecido como “muralha de drones“, uma zona defensiva em camadas que se estende de 15 a 25 km a partir da linha de frente, chegando a 40 km em alguns setores graças aos drones de fibra ótica, que são resistentes ao bloqueio eletrônico.
Os soldados russos avançam, tomam posições, mas não conseguem segurá-las: enxames de drones os forçam a recuar com pesadas perdas.
Drone de fibra óptica ucraniano.
O resultado prático de tudo isso é que, em todo o ano de 2025, o exército russo capturou menos de 1% do território ucraniano enquanto sofria mais de 400.000 baixas, conforme dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW), organização americana de análise de conflitos.
O modelo de recrutamento voluntário está chegando ao limite
Desde o início da guerra, a Rússia tem evitado chamar às armas os seus cidadãos de forma compulsória.
Em vez disso, adotou o modelo de recrutamento por contrato: o governo paga para que os homens se alistem voluntariamente.
E paga muito.
O bônus médio de assinatura nas regiões russas saiu de 1,2 milhão de rublos no início de 2025 para quase 2,2 milhões de rublos em outubro do mesmo ano.
A região de Samara chegou a oferecer 4 milhões de rublos (o equivalente a aproximadamente 44.000 dólares) para um único recruta.
Além do bônus, o salário mensal de um soldado contratado gira em torno de 210.000 rublos, mais do que o dobro do salário médio na Rússia.
Envio de contratados para unidades das Forças Armadas da Rússia. Fonte: Alexander Avilov / Moskva News Agency.
Em 2025, esse modelo ainda funcionou: a Rússia recrutou cerca de 400.000 soldados por contrato ao longo do ano, segundo declaração do vice-presidente do Conselho de Segurança russo, Dmitri Medvedev.
O plano para 2026 era recrutar 409.000 no mesmo formato. Mas os dados do primeiro trimestre mostram que isso não está acontecendo.
Segundo a inteligência ucraniana, a Rússia conseguiu recrutar apenas cerca de 80.000 homens nos primeiros três meses de 2026, ou seja, apenas 22% da meta anual. No mesmo período, as perdas chegaram a 89.000.
Empresas e universidades viram postos de recrutamento
Quando o recrutamento voluntário começa a falhar, o Kremlin não anuncia uma mobilização formal.
O que acontece é um aperto progressivo que vai tornando o “voluntário” cada vez mais parecido com o obrigatório.
A região de Riazan, localizada a cerca de 200 km de Moscou, se tornou um exemplo concreto disso.
O governador Pavel Malkov assinou um decreto em março de 2026 estabelecendo cotas de recrutamento para as empresas locais.
Segundo a Euronews, empresas com 150 a 300 funcionários devem indicar ao menos dois candidatos ao serviço militar por contrato; as com 300 a 500 funcionários, três; e as com mais de 500, cinco.
Quem não cumprir pode ser multado em até 1 milhão de rublos ou ter o seu diretor detido por até 30 dias.
Nas universidades, a pressão é igualmente intensa. O ministro da Ciência e Ensino Superior russo comunicou aos reitores das maiores universidades do país que pelo menos 2% dos estudantes devem assinar contratos militares.
Como as universidades russas têm cerca de 2,2 milhões de alunos, isso representa um alvo de 44.000 recrutas apenas nesse grupo.
Para atrair os jovens, o governo oferece promessas de admissão preferencial, licenças acadêmicas e quitação de empréstimos estudantis.
Segundo a Euronews, foram identificadas pelo menos 200 reuniões de recrutamento realizadas em universidades e institutos de ensino superior em toda a Rússia.
Os direitos humanos alertam, porém, que estudantes que assinarem contratos como operadores de drones e não atenderem aos critérios técnicos podem ser transferidos por ordem de um comandante para qualquer outro ramo das forças armadas.
O padrão que se repete: negar antes de fazer
Em 27 de março de 2026, Dmitri Medvedev afirmou que, com mais de 80.000 contratos assinados desde o início do ano, “não há absolutamente nenhuma necessidade de anunciar uma nova onda de mobilização”.
A frase é quase idêntica à que o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse poucos dias antes de setembro de 2022, quando Putin anunciou a primeira mobilização parcial da Rússia desde a Segunda Guerra Mundial.
Naquela ocasião, o objetivo era convocar 300.000 reservistas.
O resultado foi uma explosão de protestos em dezenas de cidades e uma fuga em massa: segundo o próprio FSB, o serviço de segurança russo, cerca de 300.000 russos deixaram o país para escapar da convocação.
A experiência deixou uma ferida política profunda no Kremlin.
Por isso, desde então, Putin tem preparado o terreno de forma mais discreta.
Em 2024, sancionou uma lei que permite a conscrição o ano inteiro, ampliando a faixa etária de convocação para até 30 anos.
Em novembro de 2025, assinou um decreto permitindo que reservistas fossem mobilizados para proteger infraestrutura crítica.
Em dezembro de 2025, assinou outro decreto tornando o treinamento militar obrigatório para reservistas em 2026, algo incomum e visto por analistas como uma forma de ampliar a força de combate sem declarar formalmente uma mobilização.
Conforme reportou o portal Sapo/EFE, o Kremlin mantém que uma segunda mobilização formal não está prevista.
Mas os preparativos em curso, aliados à deterioração dos números de recrutamento, sugerem outra coisa.
O que vem a seguir
A Rússia se encontra presa em uma espiral difícil de romper.
As baixas estão em níveis recordes, o recrutamento voluntário está em queda e os custos financeiros de manter soldados bem pagos no campo de batalha crescem sem parar.
Segundo documentos consultados pela Reuters, Moscou já planeja cortar os gastos com defesa em pelo menos 7% em 2026, o que pode tornar os altos bônus de recrutamento insustentáveis a médio prazo.
A questão, para os analistas que acompanham o conflito, não é mais se Putin fará alguma forma de nova mobilização.
A pergunta real é como ele tentará disfarçá-la para que não seja reconhecida como aquilo que é.
O histórico sugere que, quando o Kremlin nega algo com muita ênfase, é hora de prestar atenção.
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